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O porão

  07/09/2020 – México

  Descer aquelas escadas foi como caminhar dentro da própria boca do inferno. O ar parecia vivo… e doente. Cada passo era um aviso: n?o volte. Mateus tremia, n?o por falhar… mas pelas m?os por que ele tinha apenas 15 anos e estava prestes a confrontar um trauma que eu nem conseguia compreender.

  Eu mordi o dedo indicador.

  A dor me trouxe foco.

  O sangue escorreu quente.

  E ent?o queimou.

  Valete de Ouros.

  A chama ígnea cobriu minha m?o, projetando luz para frente. A madeira da porta sussurrou quando empurrei… e a escurid?o engoliu a luz, como se estivesse com fome dela.

  Um por?o n?o é só um por?o

  O teto baixo, o cheiro ácido… ferro, carne, desespero.

  Mas nada preparou meu cérebro para o que meus olhos captaram.

  Ganchos.

  Correntes.

  Macas enferrujadas.

  Uma cadeira cirúrgica com as tiras rasgadas.

  No fundo, caixas de fitas VHS. Cada uma etiquetada com uma data.

  Pequenas cruzes desenhadas com marcador vermelho.

  E corpos. Ou o que sobrou do conceito corpo.

  Meu cora??o bateu errado. Como se meu peito tivesse sido apertado por dentro. A garganta travou. Engoli ar e o ar parecia seco demais para entrar a única coisa que senti era um repulsa e uma triste já incalculável lágrimas desciam de forma que pareciam rios.

  "Alex? " sussurrou Mateus, voz quebradi?a.

  "N?o olha… " eu murmurei.

  Mas era impossível n?o olhar.

  As vítimas eram crian?as.

  Algumas com tubos perfurando a pele.

  Outras… costuradas, remendadas como bonecas de um psicopata.

  A chama do meu sangue dan?ou, revelando mais.

  Um cartaz na parede, com marcas de unha.

  E a mensagem escrita com tinta escura talvez sangue.

  This book was originally published on Royal Road. Check it out there for the real experience.

  “O progresso exige sacrifício.”

  Meu est?mago se revirou.

  Meu cérebro tentou negar.

  Mas ent?o vi.

  O menino desaparecido

  Sobre uma mesa cirúrgica, estava ele.

  Andrés Castillo.

  O garoto cuja m?e implorou ajuda.

  Cabelos crespo, pele pálida demais… Os olhos ainda abertos, parados.

  As pupilas fixas no teto.

  Como se ainda esperassem algo.

  Alguém.

  Eu me aproximei, automático, movido pela culpa antes de qualquer pensamento lógico.

  Toquei sua testa com a ponta dos dedos.

  Gelado.

  "Andrés…"

  "Você conhecia ele? " Mateus perguntou, voz pequena.

  " Eu prometi trazer ele de volta pra casa. " respondi sem ar.

  A chama da minha m?o diminuiu… o tempo da minha Habilidadeestava acabando.

  E foi ali que minha mente quebrou só um pouco o suficiente para que a culpa entrasse.

  Você chegou tarde demais.

  Se você fosse melhor… se fosse mais rápido… ele estaria vivo.

  A frase n?o veio de ninguém.

  Veio de mim.

  Da parte que eu tento enterrar todos os dias.

  A culpa da morte do Andrés é da morte do Harry s?o apenas minhas.

  O silêncio no por?o era t?o pesado que parecia gritar.

  As fitas

  Eu precisava de respostas. Precisava entender como, quando e quem havia feito isso. Se n?o pudesse trazer Andrés de volta, ent?o ao menos eu destruiria quem o matou.

  Peguei uma das fitas.

  Etiqueta escrita à m?o:

  “Teste 46 do AUB — Cobaias: Andrés / Guillermo / Sofia”

  Minhas m?os tremeram.

  Coloquei-a no velho videocassete improvisado ao lado de uma TV poeirada.

  A imagem ganhou vida aos pulos, ruidosa.

  Primeiro, uma sala branca demais.

  Médicos com máscaras.

  Crian?as amarradas.

  Andrés gritava.

  Chamava pela m?e.

  Eu n?o percebi que estava chorando até as lágrimas caírem.

  "Desliga isso. " minha voz falhou.

  Mas eu continuei assistindo.

  Porque parte de mim acreditava que eu merecia sofrer aquilo.

  No vídeo, um homem entrou no quadro.

  Cabelo loiro preso em rabo de cavalo.

  Barba por fazer.

  Sorriso… animado demais.

  Henry Lemoyne.

  Eu deveria tê-lo matado juntocom seu irm?o deixei ele escapar na Itália e agora denovo.

  Ele acariciou a cabe?a do menino como se fosse um animal de estima??o.

  "Se sobreviver, garoto… você se torna especial."

  Ent?o o líquido azul foi injetado.

  Andrés se contorceu até quase quebrar a própria coluna.

  A grava??o encerrou com uma risada.

  N?o do menino.

  Do monstro.

  Eu tapei a boca com a própria m?o, para n?o gritar.

  As paredes falam

  Enquanto absorvia aquilo, algo me bateu:

  Cada mancha, cada fita… era uma testemunha do eu falhei em impedir.

  Fui até Mateus.

  Ele estava pálido, mas n?o pelo horror da cena.

  Pela lembran?a.

  "Eu… eu estava aqui, Alex. "ele sussurrou. " Isso aconteceu comigo… e eu deixei acontecer com eles. Eu contei a eles sobre a fuga…"

  Ele desabou ajoelhado, como se o peso da culpa tivesse puxado sua espinha.

  " Eu matei todos. Eu sou um monstro."

  Eu me agachei, segurando forte seu ombro.

  "Você n?o matou ninguém. " Minha voz saiu baixa, mas firme. " Os monstros s?o eles. E nós vamos acabar com eles. Com cada um deles. "

  Ele me encarou, olhos vermelhos, buscando verdade na minha express?o.

  Eu respirei, engoli o gosto amargo do por?o.

  "Mateus… você sobreviveu. Isso n?o te faz culpado.

  Te faz forte o bastante para lutar agora."

  Eu voltei até o menino e fechei seus olhos com cuidado, ignorando a dor que queimava na minha própria pele.

  Eu queria dizer algo bonito. Algo digno.

  Mas tudo que saiu foi a verdade mais crua:

  " Me perdoa."

  Senti minha voz rachar.

  "Eu n?o consegui te salvar."

  Segurei a m?o dele "Mas eu juro… eu vou fazer eles pagarem."

  Mateus fungou atrás de mim.

  "A gente precisa ir embora agora, Alex."

  "Sim."

  Antes que mais fantasmas se juntassem aos meus.

  Antes que eu esquecesse que ainda havia vivos para proteger.

  Eu tirei meu casaco e cobri o corpo de Andrés.

  Assim como um policial cobre seu caído.

  Assim como um pai cobriria seu filho.

  E ent?o, finalmente, deixamos aquele buraco amaldi?oado.

  Mas n?o inteiros.

  Nunca mais inteiros.

  Saída

  Quando subimos as escadas, jurei:

  Eu vou queimar essa casa.

  Vou queimar esse cartel.

  Eles roubaram uma crian?a do mundo.

  Ent?o eu vou roubar o mundo deles.

  E a luz do sol pareceu mais escura quando deixamos a casa para trás.

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